SANEAMENTO E MUDANÇAS CLIMÁTICAS: não existe segurança hídrica sem tratamento de esgoto.
- Equipe Wetlands
- há 13 minutos
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Muito se fala sobre garantir segurança hídrica em um cenário marcado pelas mudanças climáticas, mas se esquece que a segurança hídrica não é só sobre quantidade, mas também sobre qualidade. Não basta garantir o acesso a água, com um risco aceitável de secas e enchentes, se não há água limpa. E não existe água limpa sem o tratamento de efluentes.

Os eventos extremos serão cada vez mais intensos, tornando mais frequentes as enchentes, e onde há esgoto sem tratamento ou drenagem inadequada surgem riscos adicionais: contaminação de corpos hídricos, proliferação de doenças e danos à saúde pública.
Organizações como Sanitation and Water for All (SWA) alertam que desastres hídricos-climáticos já vêm afetando milhões de pessoas e que a interligação entre saneamento, água e clima é central para a adaptação.
Para além da adaptação, o saneamento também é uma peça de mitigação. Ao tratar esgoto, podemos reduzir a liberação de gases de efeito estufa (GEE), a depender da matriz tecnológica adotada. O IPCC propõe o conceito de Fator de Correção de Metano (MCF), o qual descreve a fração do potencial de geração de metano (CH₄) que efetivamente se realiza conforme o tipo de tratamento. E o tipo de processo impacta substancialmente nas emissões. Por exemplo, lagoas anaeróbias profundas ou reatores anaeróbios do tipo UASB que não recuperam metano podem ter um MCF de 0,8. Em contraste, sistemas aeróbios bem-operados, como lodos ativados ou wetlands construídos, podem apresentar MCF muito baixos, da ordem de 0,03 e 0,01. Essa variação significa uma redução potencial de mais de 95% nas emissões de GEE. Em outras palavras: a escolha tecnológica impacta diretamente na contribuição das emissões de GEE e, logo, na aceleração das mudanças climáticas.
Sobre esse tema de emissões de GEE em ETE temos um artigo bem interessante, que traz alguns cálculos elementares (clique aqui para acessar).
Mas, claro, cada realidade deve ser tratada individualmente e a escolha da tecnologia não pode ser baseada em um só critério.
O Brasil, por sua vez, está correndo atrás do tempo. Mais da metade dos municípios brasileiros ainda não dispõe de infraestrutura para tratamento de esgoto, e muitos dos que o têm operam com sistemas inadequados ou pouco resilientes. Esse atraso contrasta com a urgência do desafio climático. Se não gerarmos rapidamente infraestrutura robusta, estaremos vulneráveis a cheias, inundações e contaminações, ou seja, não iremos garantir a segurança hídrica.
Mas a construção ou a reforma da infraestrutura de saneamento não pode se dar como no passado. Temos de projetar para o futuro. Isso exige que os projetos, a operação e a manutenção considerem essencialmente a garantia da manutenção da qualidade da água dos corpos hídricos.
Nesse sentido, o financiamento se torna estratégico: um recente relatório conjunto de bancos de desenvolvimento mostra que, em 2024, foram aprovados cerca de US$ 19,6 bilhões para segurança hídrica em países de renda baixa e média. Contudo, é preciso que os instrumentos de financiamento não abarquem apenas as infraestruturas de drenagem pluvial. O tratamento de esgoto deve estar explicitamente incluído e ser contemplado por soluções resilientes e de baixo impacto, como instrumentos de garantia à segurança hídrica.
A escolha das tecnologias precisa refletir essa nova realidade. É preciso pensar em sistemas capazes de resistir aos efeitos das mudanças climáticas e que se adaptem às condições locais, tanto ambientais quanto socioeconômicas, específicas de cada projeto. Infraestruturas que unam eficiência no tratamento de efluentes, baixo custo de operação, reduzido consumo de energia e facilidade de manutenção. Que protejam os recursos hídricos e assegurem a qualidade da água, mesmo diante de cenários cada vez mais extremos e que realmente sejam sustentáveis ao longo do tempo.
Quer implementar infraestrutura de saneamento verdadeiramente sustentável no seu município, distrito ou indústria e contribuir para acelerar a mudança da realidade brasileira?
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REFERÊNCIAS CITADAS:
WORLD BANK. Water Security Financing Report, 2024. <https://www.worldbank.org/en/topic/water/publication/water-security-financing-report-2024 >
SWA. Climate Action and WASH, 2024. <https://www.sanitationandwaterforall.org/about/about-us/water-sanitation-hygiene/climate-action>
IPCC. Guidelines for National Greenhouse Gas Inventories – Wastewater Treatment and Discharge, 2019 <https://www.ipcc-nggip.iges.or.jp/public/2019rf/pdf/5_Volume5/19R_V5_6_Ch06_Wastewater.pdf>
IPCC. IPCC Guidelines for National Greenhouse Gas Inventories: Wetlands, 2013. <https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2018/03/Wetlands_Supplement_Entire_Report.pdf>





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